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Concurso

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Vencedores do Concurso

Cronicas Vendedoras:

1º Lugar

Nome: Maria De Lurdes Rech

Infância

Desde quando sentíamos o prazer de estar nas águas sagradas do ventre materno, sonhávamos com a próxima estação da vida. A doce infância, fase que perpetua na memória as experiências mais sublimes. Essas que terão o poder de rastear e de se fazer presentes como sombra em dia de sol, nos passos que serão dados durante toda existência, já que o tempo en-velhece tudo, menos as lembranças.
A palavra infância soa aos ouvidos como algodão doce, sorvete de baunilha, moeda dourada para ir até o fim do quarteirão se deliciar com guloseimas multicores.
O primeiro dente de leite, a primeira palavra, o primeiro passo rumo ao desconhecido, o primeiro dia na escola, a primeira professora, a história predileta que alguém sempre conta-va, enquanto se viajava por mundos que somente criança é capaz de explorar.
Criança tem risos e gargalhadas que, com inocência e extravagância, ficam na mesma proporção, pois não receiam \"pagar mico\", porque espontaneidade é a maior característica.
É nos momentos de isolamento que criança enxerga anjos e parceiros com os quais troca idéias, conta segredos que adultos não entenderiam. Parceiros tão reais para si quanto invisíveis aos olhos dos que já petrificaram sensibilidades.
Infância tem dinda, vovó, parque infantil, brincadeira, cantigas de roda, Papai Noel e amigos para saber que a vida é uma ciranda, e que precisamos aprender a jogar e conviver com os iguais e os diferentes, para depois sobreviver às intempéries que a ela imporá sem pedir licença.
Criança se lambuza com bolo de chocolate, gosta de andar na chuva, deitar na cama dos pais e mexer nos objetos guardados a sete chaves, onde fica escondida a curiosidade que dá asas à imaginação.
Criança sonha com bicho papão, tem inseguranças, vontades, manhas, birras, desejos, ganhos e perdas, brigas com irmãos para aprender a se defender e driblar os percalços que comprovam, desde cedo, que o jogo da vida é duro.
O tempo pode envelhecer a tudo, menos as lembranças da infância com detalhes que lhe são pertinentes até que, um dia, quando os cabelos já estiverem nevados, voltaremos a ela e passaremos novamente a gostar de leite e sopas, a usar o antigo cavalinho de pau que servirá de apoio, a falar sozinhos e trocar idéias com anjos e amigos imaginários, a querer atenção, companhia e afeto.
Um dia voltaremos a gostar das histórias. Não daquelas que nos contavam antes de entoar as cantigas de ninar, mas aquelas onde fomos protagonistas e sentimos alegria quando alguém pára e escuta os fatos do percurso de um passado que, embora distante, ainda é presente.
E de história em história ficaremos na expectativa de que, quando chegar a hora da partida, teremos a possibilidade de renascer e reviver a infância, doce infância, num plano superior, onde estarão os anjos e os velhos amigos nos aguardando de braços abertos, para juntos, praticarmos as aventuras e proezas dessa nova estação.

 

2º Lugar

Nome: Ana Maria de Souza Mello

Namore, não fique

Hoje eu vou fazer propaganda do namoro. Namorar é muito melhor do que ficar simplesmente.
Já sei, você está pensando que eu já passei dos quarenta e nem sei o que é ficar.
Bobagem, tem muito quarentão que fica, e além do mais é só pesquisar, falar com as pessoas, para saber o que é que está rolando.
Em primeiro lugar não vá na conversa dos que dizem que namorar está fora de moda, a moda é a gente que faz. Também não se curve às pressões da turma. Eles querem que você fique, dizem que todo mundo já ficou, mas isso nem sempre é verdade.
É natural do ser humano ralar com o próximo. Quando estamos solteiros todos querem nos casar, dizem que é melhor. Depois pressionam para que venha o primeiro filho.
Aí filho único é ruim, precisamos ter outros. Resumindo, é tudo conversa, cada um sabe o que é melhor para si.
Exatamente, eu estou só defendendo o namoro, mas a decisão é toda sua. Pondere, aprecie. Ficar não tem compromisso, mas compromisso é tudo. Mostra responsabilidade, comprometimento, personalidade. Não ter limites ou regras é superficial. Pode ter intimidade sexual mas não tem nenhuma intimidade emocional.
Namorar é ter um parceiro que goste de você, que divida suas ansiedades e segredos, que tenha opiniões para compartilhar.
Tem a expectativa de durar para sempre, de virar casamento, ser eterno. Ou pelo menos tem a graça do querer, do futuro.
Ficar não tem futuro, está fadado a acabar.
Qual a graça de beijar um monte de gente em uma festa? Será que isso acrescenta alguma coisa além de bactérias? Beijar é fácil de aprender, não precisa faculdade.
Beijar com amor, com vontade, com desejo de dias só de paquera, é muito melhor.
E o dia dos namorados? É uma delícia. Casais por aí trocando abraços, beijos, presentes. Mandando torpedos, escrevendo coisas melosas. É um dia programado para o amor.
Namoro pode ser para sempre, mesmo depois de casados nós podemos namorar, mandar mensagens, fazer poesia.
Os ficantes não sabem quase nada um do outro. Não sabem a música preferida, não conhecem a família, nem as manias, qualidades e defeitos.
E dia dos ficantes? Tem?
Percebeu? Namorar é muito melhor.

 

3º Lugar

Nome: Jussara Maria Nodari Lucena

Hóspedes

Chegaram sem avisar. Estabeleceram-se em minha casa, sem a menor cerimônia, e não sei quanto tempo vão permanecer. Não posso dizer que perturbem: são discretos, saem muito e, quando presentes, passam a maior parte do tempo no pequeno jardim que mantemos no fundo da casa.

Devo confessar que não sou nada hospitaleiro. Apenas os filhos, que moram em outra cidade, e uma que outra amiga de minha mulher, quando vem à Capital de passagem, hospedam-se conosco. Julia costuma chamar-me de Urtigão, referindo-se ao misântropo personagem das revistas em quadrinhos.
Mas não é bem assim. Sou tranquilo, de pouca conversa e prezo demais minha intimidade. Ler e assistir filmes, ou documentários, na televisão são meus passatempos prediletos. Julieta, quando me conheceu, gostou de mim como sou, está acostumada com este meu jeito e sabe que não vou mudar. Nem se importa se, ao conversarmos, muitas vezes respondo apenas por monossílabos ou limoto me a ouvi-la. Só não aceita e fica irritadíssima - com razão - quando percebe que, escondido atrás do jornal, não a escuto.
É verdade que tenho escassa vida social e não gosto de festas. Também não aprecio visitas-surpresa. Ainda que para um simples olá ou um cafezinho, espero das pessoas a gentileza de telefonar com um mínimo de antecedência. Mas isso não quer dizer que não goste de convidar, eventualmente, amigos para um almoço ou jantar, com direito a bastante tempo para os aperitivos e, ao final, uma longa conversa em volta da mesa. Porém, esgotados os assuntos, desculpem-me: cada um para o seu lado.
Receber hóspedes, essa já é outra história. Assombra-me a perspectiva de permanecer dando-lhes contínua atenção, de perder minha privacidade, abrir mão de meus períodos de silêncio e mudar o estilo e os horários de minhas refeições.
Além do mais, sou resmungão e Júlia - sejamos justos - é muito implicante. Impossível perder o costume de debicar-nos; estamos casados há mais de trinta anos e sempre foi assim. Seria constrangedora para todos qualquer cena desse tipo. Melhor evitar.
A meu favor, posso dizer que jamais hospedo-me na casa dos outros. Ainda ue parentes e amigos insistam, declino da gentileza e busco um hotel, onde posso preservar ao menos alguns de meus hábitos.

Quanto aos meus atuais visitantes, pressinto que não vão permanecer muito tempo mais: a hora da partida se aproxima. E, ainda que pareça estranho, isso me deixa muito triste. Sei que vou sentir uma falta enorme dos beija-flores.

 

Menção Honrosa

Nome: Sílvio Luís De Vasconcellos

Fronteiras da Miséria

Você, em sua casa, tal qual um nobre em seu castelo, se cerca de grades, alarmes e trancas. Quer deixar de fora o que lhe afronta, o que lhe amedronta, o que lhe tira o sono. No seu bairro, ajardinado e limpo, desconfia de todos que nele cruzam, até do gari que ali trabalha e do catador que “limpa” o seu lixo.

O Brasil vasculha, em porões de navios que passaram pela África, os desterrados de hoje e encontra, em galpões imundos, pobres bolivianos e paraguaios, trancafiados feito bichos, presos a dívidas, sem documentos e sem honra, trabalhando para seus donos por um prato imundo de comida.

Na fronteira entre os ricos do norte e os miseráveis do sul, como uma arquibancada prestes a ruir, hordas anônimas esperam o momento de invadir o “american way fo live”. Pelos rios, desertos e pelo mar, em barcos, caminhões ou qualquer coisa que flutue, latinos invadem o reino do Tio Sam, para trabalhar por algumas verdinhas indecentes, em serviços que os próprios americanos se recusam a operar.

Na Europa, penitenciárias em aeroportos na Holanda e hotéis na França, ardem com carvão humano, em fogueiras nazistas. Povos vindos da África para servir a nobreza mofada, ou vindos da velha cortina enferrujada, fugindo da falência de um sonho comunista.

E você, através do olho mágico de sua porta trancafiada por ferrolhos e aparatos eletrônicos, se julga protegido. Vã ilusão...

Entre Aids, guerrilhas, porões e galpões, a miséria se multiplica sem que ninguém faça nada e mais cedo ou mais tarde, não haverá fronteiras. Em busca da água, alimento e de um futuro digno, tudo ruirá. Se ficarmos assistindo, ignorantes em nossos castelos de areia, assistiremos a queda dessa civilização do medo, onde a escravidão só mudou de ares; onde milhões de pessoas se submetem a uma vida miserável, enquanto uma minoria engorda, de tanto comer o que não digere, para depois gastar seu dinheiro para restaurar a falácia juvenil que vende cosméticos, dietéticos e cirurgias milagrosas que não corrige a flacidez de suas almas.

 

Contos Vencedores

1º Lugar

Nome: Alexandre Freitas Haubrich

A Alta

Ela mete medo. Não apenas naquele menino. Mete medo em qualquer um. Grande, pequeno, gordo, magro, malhado, católico, muçulmano, ateu, branco, preto, azul, colorido. Não há quem não tema as esmeraldas que carrega travestidas de olhos curtos. Não apenas as esmeraldas. O menino é tímido e, mais do que tímido, consciente. Sabe que não é o que ela chama de “meu tipo”. Sim, ela tem tipo próprio e dele não se afasta meio passo que seja. Mulheres altas metem medo e tem tipo. Mulheres altas olham de cima.
É assim, lá do alto, que essa morena observa o menino enquanto conversam. Os sorrisos com que ela lhe presenteia parecem-lhe mais amarras de arame do que laços de fita. E, como sempre, o menino fica assustado, e a voz não fala e as idéias não pensam e a boca não se move a não ser em um leve abrir de lábios a mostrar entre os dentes o temor de sua alma.
Sorrindo, ela leva suas mãos ao rosto que não chega ao seu pescoço, escorrem secos seus dedos pela face do menino, que não chega sequer a estremecer tal a tensão que o percorre. Os cotovelos de creme dobram-se devagar e fazem apenas a força necessária para que as mãos de lã ergam a cabeça que pende baixa entre os dedos. A boca úmida aproxima-se desprevenida, beija a testa do menino amedrontado e diz até mais. Não adeus, diz até mais.

 

2º Lugar

Nome: Alba Pires Ferreira

Um Caso de Polícia

Pés descalços, quase se despedaçando contra um ônibus atulhado de gente, Marlei corre. Entra no posto do INSS, e, ligeira, entrega a criança ao Dr. Davi. Nuvens escuras no céu, relâmpagos. Desgrenhada, de joelhos no piso frio, traz no coração um pedido; nos lábios uma promessa.
Sério, uma ruga na testa, o médico encara Marlei:
- Lamento muito -fala. \"Crânio amassado, hemorragia interna, realmente uma pena\". Ajudara o garoto a vir ao mundo...
Ela não escuta mais. Olhos secos de lágrimas, toma o caminho de volta. Desaba o temporal. Com o filho nos braços, agasalha-o bem. Tão lindo o seu menino...mesmo assim, de cabecinha torta, continua bonito. Um tanto magrinho para a idade. E que esperto...
- Mãe, não vai trabalhar, fica comigo hoje...
Olha para o lado. Numa outra cama, suarento, enorme, o seu companheiro ronca. O hálito recende a cachaça e a plantas apodrecidas na àgua. Por um instante, ela o contempla. Operário da construção civil, Mauro curte um trago. Há seis meses dividem o barraco na vila. Agora, desempregado, ela trabalha de faxineira para manter a casa. Precisam comer, tem o leite do menino...um tempo atrás pneumonia. Se não fosse o Dr. Davi...
De um pulo, achega-se ao berço da criança. Num silêncio um afago, um beijo no rosto. Dorme tão calmo. Parece um anjinho. Agora preciso pagar minha promessa.
A passos lentos, dirige-se à cozinha; calada, retorna ao quarto.
Num rugido, a ventania destelha o casebre. Misturada ao barro vermelho, a chuva inunda tudo. Alheia, Marlei contempla a faca junto ao pescoço de Mauro. Ela ainda está a olhar a faca quando a polícia chega.

 

3º Lugar

Nome: Leonardo Colucci

Sapato de Pregos

Na iminência do disparo Douglas vira para o lado esquerdo. Contrariando todas as recomendações que recebera sobre como portar-se nestas ocasiões, ele olha por um breve instante para o dedo que se apóia ao gatilho tentando adivinhar o estampido. Um movimento precipitado pode lhe custar caro. Existem outros como ele que, embora atentos, parecem conformados com a fatalidade. Volta-se, então, para frente e fixa-se no horizonte. “Se eu conseguir correr como ontem, talvez eu tenha alguma chance”, teve tempo de pensar. Douglas vê a linha pintada no chão a poucos milímetros de seu polegar e indicador. Dedos rígidos que sustentam seu corpo pesado.
O ultimato já foi dado. O tiro não tardará. Douglas fecha os olhos e apura os ouvidos. Tenta anular os outros sentidos e concentrar-se no momento que precede o estrondo. Com a respiração presa escuta o silêncio...
“Bang!”
É hora de correr. Douglas sai em disparada. Os pregos, atarraxados um a um são cúmplices sob os pés apressados. Alguns metros adiante ele já vai reduzindo a inclinação do corpo e pondo-se ereto tenta manter a velocidade. O impacto sobre os calcanhares faz o corpo inteiro tremer, mas ele mantém-se determinado a não olhar para trás.
A esta altura são sete homens em seu encalço. Ao perceber-se dois passos adiantado, Douglas perde a concentração e a menos de dez metros da linha de chegada vê o britânico ultrapassá-lo pela raia três.

 

Menção Honrosa

Nome: josete sobbe obino

Os Chinelos de Raimundo

Os chinelos de Raimundo estavam quase lhe derrubando, mas ele continuava a correr. Os dedos crédulos, de seus pés, agarravam-se às tiras. O corpo magro vestia apenas uma bermuda e camiseta. Tinha de prosseguir. Seus cabelos compridos e encaracolados grudavam no rosto, e pela barba rala e comprida gotas escapuliam. Todo ele transpirava. O sol das duas horas ardia.
O maldito ônibus tinha de se adiantar — logo hoje —, que as duas e meia ele deveria estar no hospital.
Foi ele chegar no ponto e o infeliz arrancou; e o próximo só passaria daqui a uma hora. Então ele voltou a correr. Poderia alcançar o próximo ponto antes dele.
Atravessando a rua, a duas quadras da parada seguinte, quase foi atropelado por uma viatura da Polícia. Sua salvação foi a placa PARE, bem na esquina, que deteve o veículo. Raimundo já avistava o bendito ponto, e quase passava o ônibus.
Os policiais sentados se entreolharam. Ligaram a sirene, e arrancaram.
Ele conseguira passar o ônibus, preso na sinaleira. A poucos metros do ponto quase voava.
— Glória, eu vou chegar a tempo de te dar um beijo. — disse consigo.

O camburão estaciona na parada. Os policiais descem e seguram Raimundo. O ônibus passa reto. Ninguém sobe, ninguém desce.
Raimundo braços levantados, pernas abertas e as mãos encostadas no muro. Os policiais revistam os bolsos da bermuda, e só encontram uma ficha de ônibus.

 

Poesias Vencedoras

1º Lugar

Nome: Sérgio Luis Vargas

Seu pestinha

Nos cristais da cristaleira
É visível a tremedeira

Seu espelho fecha os olhos
As garrafas batem queixo

Os vidros das janelas
Sentem um frio na espinha

Dona xícara se esconde
No armário da cozinha

Foi a porta se abrir
Pra casa toda sentir medo

O menino que chegou
Tem os olhos nas pontas dos dedos

 

2º Lugar

Nome: João Batista Madeira Gonçalves

LÁPIDE COLETIVA
Aqui desfrutam afinal
Joãos, Marias e Josés
A igualdade final.

 

3º Lugar

Nome: Ana Maria de Souza Mello

Morfologia e Sintaxe

amor gramatical
ele interrogação
ela ponto final

 

Menção Honrosa

Nome: danielle ferreira sibonis

Desassossego

estou a desenhar estrelas
em teus cabelos de noites frias

a inventar rumores
que desmoralizem santos
e crucifiquem prantos

a construir galáxias de fumaça mentolada
no terreno baldio do teu sorriso

sou irmã, mãe, meretriz
e tu, lua nova